Vanessa Ruiz |
Gente, jornalista antes de (quase) tudo e educadora voluntária. Apaixonada por pessoas, por boas histórias, pela natureza, por conhecer gente-coisas-lugares novos. Continuo achando que vocês ainda vão me visitar em um bangalô (com notebook e internet, é claro, porque também sou 'tech freak'). Editora-chefe do site Tazio (http://tazio.com.br). Recentemente, um tempo bom na revista ESPN. Num passado não tão distante: quatro anos de CBN e Rádio Globo, uma breve passagem pelo portal Terra e estágio nas TVs Record e Gazeta. O diploma é da Faculdade Cásper Líbero. http://about.me/vanessaruiz |
Um:
O trânsito das 19h30 não estava dos piores, mas eu precisava chegar o mais rápido possível, de qualquer forma. A Faria Lima estava tranquila, até que me apareceu um daqueles folgados que acham que é só dar seta pra conquistar o direito de mudar de faixa. Sabe aquelas faixas exclusivas pra conversão? Então. O carro deu seta e foi saindo devagarzinho, se enfiando na minha frente. Eu buzinei, lógico. Que folgado! Paulistano no trânsito é muito folgado, é impressionante. Ele se enfiou na minha frente e, ainda por cima, andando devagar. Pô, eu fiquei tentando achar um jeito de sair de trás dele, só que ele ia junto. “Ele” vírgula, é óbvio que era mulher, né? Fui pra pista da esquerda, ela foi também. Até que ela voltou pra pista da direita e eu passei, e buzinei de novo porque merecia. Como ela buzinou de volta, eu meti o braço pra fora e mostrei o dedo do meio e xinguei e falei um monte de mˆ#%@ mesmo — pena que ela não ouviu! Fui fazendo meu caminho no meio daquele monte de domingueiros, eu, minha mulher e nosso cachorrinho naquele calor do inferno sem ar condicionado, com os vidros abaixados. Uns quilômetros pra frente e a louca não taca a mão na buzina mostrando o dedo do meio? Além de braço curto, surtada. E covarde. Porque ela fez isso e logo sumiu, virou à direita. Típico. Encarar ninguém quer, né?
Um:
O bom de sair às 19h30 naquela região é que o trânsito já não está mais aquele caos das 17h, 18h. Como eu ia deixar uma amiga na Vila, voltei pela Faria Lima. Como eu estava meio com pressa, vi aquela faixa da esquerda dando sopa e me enfiei. Depois é que eu fui perceber que ela tinha um trecho exclusivo pra conversão. Dei seta — acho um horror quem se enfia pelo trânsito sem avisar, pˆ%# egoísmo! — e fui indo devagarzinho pra faixa da direita. Afinal, em São Paulo, se você não “for indo” mesmo que de leve, ninguém vai deixar você passar. Eu sinceramente não entendi porque o mané do carro de trás buzinou pra mim. Custa ajudar alguém que ficou preso na faixa de conversão? Será que isso nunca aconteceu com ele, não? Eu, hein! Só que eu fiquei BEM indignada e percebi que ele estava zanzando com o carro feito um paulistano paranoico atrás de mim. “Ah, tá com pressa, é? Conte comigo!”, eu pensei. Quando ele mudou pra faixa da esquerda, eu mudei também! Depois fui pra da direita e ele passou. Mas eu sinceramente nem achei que ele tinha se ligado que eu mudei pra esquerda de propósito, foi tão natural. Só que a buzinada e o dedo que ele me mostrou provam que ele percebeu. Andei mais uns quilômetros e o vi de novo, bem na hora que eu ia fazer minha curva pra direita. Não tive dúvida! Enfiei a mão na buzina, abaixei todo o meu vidro e mostrei o dedo. Ainda bem que ele não tinha uma arma. Sempre me arrependo depois.
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O novo texto do Código Florestal é um absurdo. Esta sou eu.
Manifestante é atingido por pistola de choque no Senado. Este é O Globo.
Protesto de estudantes contra Código Florestal acaba em agressão. Esta é a Folha.
Estudantes provocam confusão no Senado. Este é o Estadão.
Há dúvidas sobre qual dos três veículos é a favor da aprovação do texo que trará benefícios aos ruralistas?
Aqui, para mais. Faltam 208 dias para a Rio+20.
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A voz da estudante, que se diz de Jornalismo, comemora enquanto gravando o vídeo publicado no YouTube: “O Crusp sitiado como nos tempos áááureos da ditadura!”. Em seguida, a voz adolescente de dona não identificada diz aos policias que fazem uma barreira em frente à moradia: “Eu sou mulher! Eu estou sendo violentada!”. Oi?
Eles têm o direito de não querer polícia no campus? Claro que têm, assim como há um outro movimento que não vê motivos para a saída da PM levando em conta as questões da segurança.
Aí, eu me pergunta: por que não levantaram, então, a bandeira de um movimento anti-situação geral da PM? PM truculenta na periferia pode, no campus não? Falta visão, falta mesmo, digo sem medo. Que grandes movimentos sociais, intelectuais, a comunidade da USP tem protagonizado nos últimos tempos para se preocupar com a repressão a este tipo de ação? Cadê os alunos e professores da USP enquanto tudo em volta se despedaça? Enfim, a lista de possibilidades de luta é enorme e vai aumentando a sensação de que há uma certa ingenuidade pairando sobre as cabeças dos rebeldes. —-> Legenda: isto é uma provocação E uma cobrança.
Não é questão de lado*. Se há criticas ao movimento — falo por mim —, é porque os estudantes mostraram o tamanho do potencial que têm. Conseguiram chamar a atenção. Que usem este poder em causas que efetivamente mexam com o comando da cidadela e outras que ultrapassem seus portões.
Usar o tempo, a força, a juventude na construção de um país dignamente habitável, coisa que o Brasil é cada vez menos. O país afunda enquanto nossa economia cresce. Levantar a cabeça, ampliar o campo de visão, enxergar as raízes dos problemas e atacar bem ali, usar a ciência que tem do poder que carrega para criar algo maior.
*Aliás, já deu esse negócio de chamar de reacionário quem aponta falhas, segundo a sua opinião. Quem não sabe o que a palavra significa e/ou não sabe lidar com críticas, tem duas soluções: dicionário e psicólogo.
Um pensamento: Há alguns dias, um amigo educador, atuante em advocacy, me disse assim: “Pode me chamar pra ação social, botar a mão na massa, qualquer coisa. Mas não me chamem pra passeata”. É fato que eu me encaixo mais na primeira turma do que na segunda e, isso, depois de muito testar — fui presidente do Grêmio Estudantil, andei do ladinho do pessoal do PCdoB, e descobri que meu negócio é fazer, não causar. Só que eu vejo que “causar” tem o seu valor. Há momentos em que é preciso chamar atenção mesmo, provocar debates, ainda que gerem rancor. Mas que seja por uma causa maior. Que seja para o bem de mais do que mil pessoas encerradas em necessidades individuais.
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Praticamente todos os fãs de NFL (sabendo exatamente ao que estavam assistindo ou não) conhecem os Fantasy Files, vídeos criados pela Reebok em parceria com a NFL.com com a intenção de viralizar e provocar a dúvida: “Uau! Isso é real?”.
O projeto é de 2008 e deu muito certo. Os jogadores da NFL eram filmados (e editados) exibindo “habilidades impossíveis” como parte do esforço para serem escolhidos pelos fãs nas ligas de fantasy.
Tudo isso é pra dizer que o Cuiabá Arsenal, uma das equipes brasileiras de futebol americano criou recentemente a sua própria versão dos “Fantasy Files”. Se você ainda não viu, cá está o vídeo:
Aqui, os “Fantasy Files” reunidos:
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Post publicado originalmente no Blog da Vanessa Ruiz
Ontem, depois da jornada de cobertura da morte de Marco Simoncelli, confesso que estava bastante sensível à coisa toda. Quando aconteceu o acidente e vi a imagem do cara mais louco, mais irreverente da MotoGP jogado no chão sem capacete, gelei. Depois da morte de Gustavo Sondermann, eu quis nunca mais sentir aquele aperto no meio do peito que dá quando, lá no fundo, você já sabe que já foi, que não tem volta mesmo e sua função é divulgar a notícia. Não tem abraço na família, não tem pêsames, não tem tempo de sentir a sua própria angústia. Sua função é divulgar a notícia. Quando ouvi: “Dan Wheldon passed away”, senti tudo aquilo de novo. Um pˆ#%@ aperto no peito. E digitei a frase em português e dei enter no Twitter e cumpri minha função de jornalista naquela hora. No caso de Simoncelli, o aperto foi imediato, veio junto com a cena. Não tinha como sobreviver àquilo. Após a terceira morte em pista no ano, a cerimônia em celebração a Dan Wheldon foi um alento. Teve classe, delicadeza, riso. Um riso bacana mesmo, daqueles que se mantêm num sorriso prolongado. E, olha, boa parte disso foi graças à doçura de Tony Kanaan, Dario Franchitti e Bryan Herta, ex-colegas de time. Eles, eu já conhecia. Os demais, não, mas vale citar o bom-humor de uma sensibilidade tremenda demonstrado pelo diretor de Marketing da Panther, Mike Kitchel, e a segurança dos managers de Wheldon, Mickey Ryan e Adrian Sussmann, de quebrar aquele tom sóbrio que tinha tudo para prevalecer num momento como este e se entregar à felicidade de estar ali elevando um amigo. Fiquei 2h acompanhando o streaming do memorial, não conseguia sair de perto do computador. Depois de cobrir os três acidentes e as três passagens, posso dizer que foi a homenagem a Wheldon que liberou boa parte do peso. Ver que estava sendo celebrada a vida e não a morte foi um alívio, uma inspiração no meio do susto, do abatimento pós-trauma que acomete todos aqueles que estão envolvidos de perto ou de longe — o sentimento é sempre de perto. A morte veio, mas a vida prevalece, vai além do corpo dilacerado ainda que fraquejemos a ponto de nos deixarmos machucar, também, a cada vez que acontece algo assim. Estamos todos de pé novamente. Segue o jogo.Posted via email from ENTRELACE v2.0 por Vanessa Ruiz | Comment »
O jornalista Dan Kadlec publicou no Moneyland, da revista TIME, um texto sobre o tema com quatro dicas para fazer com que os chefes deixem a desconfiança de lado e aceitem o trabalho no sistema “home office”. Traduzidas aqui, são elas:
1. Vá devagar — Seu pedido para trabalhar em casa pode levantar questões sobre seus motivos e habilidade de ser produtivo. Sugira um período de testes, de um dia por semana, e então supreenda-os com resultados.
2. Mostre o lado positivo — Seu gerente precisa saber que quando você trabalha de casa, seu dia começa mais cedo e termina mais tarde simplesmente porque não há perda de tempo com deslocamento.
3. Mantenha contato — Tendo conseguido, garanta que está mantendo contato próximo com o escritório. Se seus colegas não conseguem encontrá-lo quando precisam de você, acabou.
4. Tenha cobertura — Questões urgentes vão surgir, do tipo que é melhor solucionado prontamente por alguém no escritório. Designe alguém para assumir seu papel quando você não estiver disponível.
A impressão é que há cada vez mais pessoas em posição de comando preparadas para entender, aceitar e lidar com o “home office”, pelo menos na área de Comunicação. E nas outras áreas, como será que anda a coisa no Brasil?
Para ler o texto completo no Moneyland, use o link logo abaixo da foto.
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O povo do automobilismo está um tanto rebelde com um texto publicado ontem por um jornalista com blog no R7, cujo título é “A lógica do automobilismo é a morte”. Não sei se eu conheço o autor porque eu sou ruim de nome, mas logo chegou aos meus ouvidos uma descrição da “função” que ele exerce com este blog dentro do portal: pegar carona em assuntos polêmicos para “contar cliques”, ainda que não entenda lhufas sobre o que está falando. Neste caso, ele engatou uma sexta na morte de Dan Wheldon para despejar estranhices na rede.
Confiando no amigo que me fez esse alerta, optei por ignorar a série esdrúxula de argumentos. Sugiro aos incomodados que façam o mesmo, se for verdade que o colega aí se alimenta de sangue — parece que sim. Eu não daria meus cliques de presente de novo.
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No início deste ano, Sheyla Juruna viajou pela Europa para levar sua voz contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu. Em agosto, durante uma entrevista em Altamira, no Pará, eu perguntei a ela o que tinha achado do que viu. Ao fazer a pergunta, imaginava escutar sobre o assombro de uma indígena criada na Amazônia diante da arquitetura e da arte que povoam as ruas e os museus das principais capitais europeias. Afinal, deslumbramento é a reação habitual de quem viaja a países como a França. Ao me responder, uma sombra passou pelo rosto de Sheyla, uma bela mulher de 37 anos com os traços bem marcados de sua etnia e olhos e cabelos bem pretos. A sombra passou e não foi embora. Para meu espanto, Sheyla assim respondeu à minha pergunta:
- Eu estranhei. Fiquei triste e oprimida. Não consegui enxergar beleza. É um mundo de concreto. Terrível. Só conseguia pensar no que havia antes que foi destruído para que aquilo tudo pudesse existir. Só conseguia pensar nos povos que viviam lá antes e viraram História.
—————————————————————————————- Eu odeio a palavra “desenvolvimento”. O Estado sempre usou esta palavra para justificar a destruição. Não deveria ser assim, né? O desenvolvimento deveria dar condições para as pessoas viverem na sua própria forma de ser, na sua cultura. Mas, na prática, o desenvolvimento é usado para nos destruir. Porque o desenvolvimento não existe para sustentar a vida, mas para o lucro das empresas e de quem faz as políticas. Em nome do desenvolvimento meus antepassados perderam até a língua que falavam. E agora poderemos perder também a vida. De novo, em nome do desenvolvimento. O que é Belo Monte? A destruição da Amazônia e da vida dos povos que vivem lá em nome do desenvolvimento. Eu detesto, detesto essa palavra.
Estes são apenas dois trechos do texto de hoje publicado pela jornalista Eliane Brum na coluna que assina no site da revista Época. O título é “A pequenez do Brasil Grande”. Para ler o texto completo (o mote é o trâmite de aprovação ou não da construção da usina de Belo Monte), clique no link acima.
Por falar em Brasil, Amazônia, coronelismo, descaso, destruição, etc, na última visita aos EUA, conheci um fotógrafo canadense que fez um trabalho muito interessante no Amazonas. Espero conseguir contar a história dele em breve — não só a dele, mas a própria história que ele está contando sobre o que o nosso governo vem fazendo com parte da população de Manaus, e em nome de quê.
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Sempre que acontece algo desse tipo*, eu me pego pensando, lendo e pensando sobre o que escrever. Há uns dez anos, eu despejaria as palavras muito mais espontaneamente do que agora. Minha mudança de perfil em casos densos como este não me incomoda — é opção, não prisão. Quanto mais leitores vão chegando, quanto mais o tempo vai passando, mais você compreende que as palavras têm um efeito tão, tão significativo que não é adequado ignorar a reflexão antes de tornar público o que se passa na sua cabeça.
Ocorre que nem sempre a motivação para despejar palavras é toda pura e nobre, porque palavras representam poder e, no momento em que alguém de fato descobre isso, descobre também dois caminhos principais diante de si: o da empáfia, de enxergar a si mesmo como o único capaz de transformar, se vendo como “o paladino da Justiça e da Verdade”; e o da humildade (uma palavra bem mal interpretada pelas nossas bandas, por sinal) que, em poucas palavras, é se enxergar como um instrumento e não como o indispensável centro de toda e qualquer ação.
Escrever é um ato que pode começar simplesmente com uma vontade de colocar algo para fora. Antes ou depois, pode vir o desejo de que aquilo que foi colocado para fora seja admirável mais do que apenas palatável. É o processo de definição do “quê e como escrever”. Particularmente, não consigo encerrá-lo sem o “por quê” e o “para quê”, principalmente o último.
“Preciso mesmo escrever sobre isso?”
“O que me faz crer que as pessoas têm que tomar contato com o meu ponto de vista?”
Caminhando nesta trilha, descobri uma questão que me ajuda a colocar as coisas do papel: “O que eu escrever vai ajudar alguém a fazer/viver melhor alguma coisa?”.
A pergunta é uma espécie de luz de vela, de lanterna que clareia o impasse, porque a resposta sempre pode ser “sim”. Basta voltar lá no “o quê” e “como”, e desenhar algo que responda “sim”.
Emocionar pelo simples prazer de ver alguém ser tocado por uma palavra bonita/dramática/surpreendente que se escreve não basta, não serve de nada — um ex-diretor meu de teatro chamaria de “masturbação mental”. No entanto, se alguém for tocado e aquilo for como uma faísca de algo novo, então eu terei servido para alguma coisa.
Quando entrei no Tazio e combinamos que eu teria um blog, comentei com o Ubiratan Leal, editor e colega de revista ESPN, ao que ele disse algo mais ou menos assim: “Mais um blog na internet pra acrescentar o quê?”. Não sei se foi exatamente isso, não importa. Faz sentido escrever só por escrever, só para ver a cara estampando o canto de uma página ou um tuíte na timeline de alguém? De maneira nenhuma, não, não faz. Prefiro escrever só quando acreditar que vale a pena — ao menos no meu ponto de vista, afinal, o primeiro ato de respeito sempre há de ser consigo mesmo. O mundo já tem baboseira demais.
E, assim, eu acabo de não escrever o texto que me propus sobre a morte de Dan Wheldon, a segunda morte de um atleta do esporte a motor em 2011, as duas primeiras que muitos jornalistas de automobilismo da minha geração acompanham de perto como profissionais. Eu escreveria agora sobre isso, mas é melhor virar a página primeiro e começar um novo post.
*Dan Wheldon não resiste a acidente e morre em Las Vegas
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“Cirurgia refrativa” é o nome dela. Consta que corrige miopia, hipermetropia e astigmatismo. Funciona, isso me disseram (e funciona mesmo!). Animada pela perspectiva de passar boa parte das férias na praia pela primeira vez desde que… ahm… eu era adolescente e minha avó cuidava da gente no litoral de São Paulo, resolvi fazer a tal da cirurgia.
O relógio corria: faltavam pouco mais de dois meses para a viagem e eu sabia que precisaria de pelo menos um mês de recuperação antes de ir.
No último dia 29/10, fui à primeira consulta. Cheguei, disse ao médico o que queria e ele foi direto ao ponto. A clínica que escolhi é meio que uma fábrica com linha de produção de cirurgias do tipo. Sete dias depois, em 06/11 (ou seja, quinta-feira passada), fiz os exames que me colocaram na condição de apta para o procedimento (grau estável, formato do olho, tipo de córnea, etc etc etc).
Se eu quisesse, podia ter marcado a cirurgia para o dia seguinte, mas achei meio estranho esse negócio, muito rápido! Preferi deixar para a segunda-feira, popularmente conhecida como ontem, 10/10, o que me daria um mês e 20 dias para me recuperar.
Absolutamente todas as pessoas com quem conversei foram muito positivas e isso me deixou confiante. Disseram que saíram da sala de cirurgia enxergando e já estavam de volta à ativa um ou dois dias depois. Elas não têm culpa do que aconteceu comigo. Nem foi tão dramático assim, na verdade. Mas, pelo menos, o médico podia ter feito o serviço de desenhar todos os cenários possíveis.
COISAS QUE NINGUÉM ME CONTOU, ditas numa linguagem que o médico não vai gostar, mas você vai entender
1) Como é a cirurgia do tipo “Lasik com Femto” (nesta clínica): Primeiro, fui a uma salinha onde a moça me deu um avental verde-água para vestir sobre a roupa, colocou uma touca no meu cabelo e cobriu meus sapatos com o mesmo material. Jogou, sorridente, um tanto de gotas de antibiótico e anestésico nos meus olhos. Em seguida, marcou um deles encaixando um aparelhinho. Toca pra sala de cirurgia. O médico apertou minha mão, notou que eu começava a ficar meio tensa e a moça que fez antes de mim deu um depoimento de três segundos sobre como estava bem. Entrei na sala: parecia uma nave espacial. Eu nunca tinha operado nada antes.
1º) Colocaram umas fitas adesivas sobre meus olhos abertos para segurar os cílios — foi o que eu ouvi, pelo menos.
2º) Um dos olhos ficou tapado enquanto o adesivo do outro lado era aberto para que fosse encaixada a coisinha metálica que o deixaria aberto.
3º) O médico aproximou do olho o aparelho que faria o corte a laser e levantaria a “tampinha da casca de laranja”. Depois de ser encaixada no olho com pressão feita a vácuo (dói um pouco), a maquinhinha corta o pedaço da camada externa que será aberta em seguida para que o outro laser “corrija o grau”. Não senti nada, só deixei de enxergar por uns 20 segundos.
4º) A maquininha sai, o médico pinga algum líquido usando a ponta de uma agulha (e eu fiquei pensando se aquilo ia me furar em algum momento… pô, ninguém tinha me explicado nada) e levanta o flap, a “tampa da casca de laranja”. Ele posiciona o outro laser, ouve-se um barulho de máquina. Senti nada além de um cheiro de queimado. O flap é devolvido ao lugar, mais alguns líquidos, o olho é tampado e passa-se para o outro.
5º) Levantei enxergando tudo, a vista só estava um pouco esbranquiçada.
OBS.: Vendo que eu estava tensa, com pés, pernas, braços, mãos e ombros duros, o médico simpático foi batendo um papinho comigo tentando me passar segurança. Mas, né? Eu me senti numa linha de produção ainda assim. É-tudo-muito-rápido-e-calculado! Cada palavra, cada ação. Pro meu perfil de existência, isso é um pouco estranho, mas está valendo.
2) O que pode acontecer depois que você sai da sala de cirurgia: Que eu ia enxergar imediatamente, todo mundo me contou. O que ninguém me disse foi que talvez eu tivesse que fechar meus olhos dez minutos após a cirurgia e só abrir no dia seguinte. Oh my, como incomodava. Só não saí do carro e voltei pra clínica correndo porque não quis assustar as pessoas que seriam as próximas — sério, não seria legal da minha parte. Mas sabe o que mais me assustou conforme o desconforto foi se transformando em algo menos e menos suportável? Nem tanto o incômodo em si, mas o fato de eu não saber se aquilo era esperado. Ninguém, nem o meu médico, tinha me dito que aquela era uma reação possível e que ia passar. Ouvindo tantas coisas maravilhosas de todo mundo, achei que o negócio era comigo, logicamente. Liguei para o celular de plantão da clínica, a médica disse que OK e eu aceitei que OK, e fui esperando os prazos e pingando os colírios e tomando uns remédios (eu não sou da alopatia, mas também não sou retardada). Dormi bem, de óculos para proteger o local, e fui abrindo os olhos aos poucos ao acordar. Continuei no escuro por uma meia hora até ir me adaptando à luz. Tomei banho normalmente, lavei o rosto, só não esfreguei sabão perto dos olhos.
3) Era comigo (mas quem podia prever, afinal?): No dia seguinte, hoje pela manhã, estávamos de volta à clínica todos os amiguinhos operados na noite anterior. Cruzei com um senhor: tranquilão, olhos alvos e brilhantes. Cruzei com uma senhora: idem. Entrou na sala de espera a moça do depoimento de três segundos: “Até assisti a um pouco de TV ontem, né?”, pedia a confirmação do marido. E eu fiquei lá brincando com ela, contando meu caso de olhos bem vermelhos, até o médico me chamar e repetir que é isso aí, vai passar, mas não posso nem apertar as pálpebras para não deslocar o tal do flap.
4) Ter experimentado 24h como ceguinho no passado ajuda: Nenhum roxo na perna, nenhuma topada, nenhuma sopa escorrida na roupa.
Meus olhos estão bem melhores, enxergo como se estivesse de óculos, ou seja, visão a 100%. Joguei fora as lentes de contato que vinha usando uma vez a cada dois meses — não as colocava mais porque havia tido um problema em 2009 que sempre ameaçava voltar. Vou poder usar óculos de sol sem pagar horrores por uma lente boa com grau, vou enxergar bem enquanto estiver no mar ou na aula de natação, não preciso grudar no professor de yoga pra ver os detalhes do ásana, etc. Fora a confusão que eu fazia com o óculos porque, antes de adotá-los, eu só tinha usado lentes de contato desde os 14 ou 16 anos.
Conclusão: recomendo! Só faltou mesmo saber de antemão que o espectro de reações “normais” pós-cirúrgicas podia não estar limitado ao cor-de-rosa. Pelo menos você já sabe, certo?
PS: Agora… cirurgia plástica estética ou qualquer outra que não tenha necessidade médica? Esta experiência e outras que a senhora minha mãe já viveu no passado me levam a um sonoro: ”Jamais!”. Não valem o meu sofrimento.
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